A Família Real Fugiu de Portugal?



          Viajar, para mim, é algo fantástico e a forma mais rápida de se adquirir cultura. Em cada lugar visitado me esforço para seguir a máxima: “Em Roma faça como os romanos”. Gosto de visitar os pontos turísticos clássicos, mas também os lugares frequentados pelo povo da terra ou nativo, como preferir. Além disto, amo provar os sabores da culinária e bebida regional, mas sempre prestando atenção aos relatos históricos, especialmente nas viagens em que há guias para fazer as “honras da casa”.  É neste momento em que muitas vezes não observamos pequenos detalhes que podem fazer muita diferença. A saída da família real de Portugal é um destes casos, deixe me contar o pequeno detalhe que me chamou a atenção nesta história.

          Era um dia típico de inverno em Lisboa, temperatura um pouco acima de zero grau, nada mal para uma Curitibana tão acostumada com o frio. Eu acompanhava o meu grupo pelas maravilhosas ruas de Lisboa quando o simpático guia turístico, o Jorge, disse: “... foi quando Dom João VI e sua família foram exilados de Portugal.” Imediatamente pensei: Não, a família real fugiu, não foi exilada. Não questionei o Jorge, apenas fiquei pensando na palavra exilada. Aproveitei ao máximo a minha estadia em Portugal, percorrendo quase que uma maratona por quinze cidades do sul ao norte. Quando regressei para casa me lembrei do fato mencionado por Jorge sobre o exílio e decidi pesquisar o assunto.

           Na escola, nós brasileiros, aprendemos que Dom João VI, sua família e corte fugiram para o Brasil. Mas qual a diferença entre uma fuga, um exílio ou mesmo uma transferência. Bem, recorrendo aos “universitários” descobri que o dicionário Michaelis On-line descreve fuga como uma saída, retirada ou partida rápida e desordenada de um lugar qualquer, em geral para escapar de uma ameaça ou fuga; exílio é degredo (afastamento social) voluntário ou forçado e transferência é a ação ou efeito de transferir-se (mudar de um lugar para outro). E agora, qual destes três conceitos cabe à situação? Antes de responder a esta pergunta vou contar às pistas que eu segui nesta interessante e divertida investigação, sem deixar de mencionar é claro, que me senti o próprio Sherlock Holmes ou quem sabe a charmosa Carmem Sandiego.

           A vinda da família real portuguesa para o Brasil é um marco divisor tanto na história de Portugal quanto do nosso país e, quiçá, mundial, uma vez que interferiu significativamente nos planos de Napoleão Bonaparte, que já no exílio, escreveu em suas memórias: “Foi o único que me enganou.”, referindo-se a Dom João VI, rei do Brasil e de Portugal. Quanta honra não é mesmo? Para um monarca medroso, indeciso, bonachão, confuso e que por terríveis fatalidades chegou ao trono – sim é este o estereótipo que nós brasileiros temos de Dom João.  


          Interessante, é observar, que este evento é muito mais celebrado pelo Brasil do que Portugal. Encontramos aqui uma vasta bibliografia sobre o assunto, mas, no entanto, em Portugal este fato é tratado até com certa indiferença e, detalhe existe pouquíssimos relatos históricos sendo que atualmente os professores lusitanos utilizam autores brasileiros em suas aulas.

          Voltando às pistas, iniciei as investigações no ano de 1807 quando Napoleão divulga sua intenção de invadir Portugal caso esta não rompa relações com a Inglaterra e literalmente dá um ultimato: “Dom João VI ou você está com a França ou contra!” A mensagem abala os nervos do regente (na ocasião ainda não era rei) de tal forma que ao invés de imediatamente buscar uma solução ele se tranca em seu quarto, negando-se veementemente a deliberar qualquer assunto com seus conselheiros. Passados alguns dias e sem alternativa, Dom João deixa a proteção do seu claustro e articula uma farsa com os ingleses. Finge romper relações diplomáticas com a Inglaterra, expulsa o embaixador inglês em Portugal e fecha os portos para o país. No entanto, parecendo prever o futuro, os mais ricos e influentes ingleses transferem suas propriedades, ou mesmo, partem de Portugal sem perder um vintém se quer. Coincidência, obra do destino? Não! O caso foi de vazamento de informações privilegiadas e qualquer semelhança com os tempos atuais é mera coincidência, caro leitor. Ou não? Você escolhe. A princípio a estratégia, na realidade um belo blefe, funcionou e até abrandou, um pouco, o humor do terrível Bonaparte e acalmou os ânimos da Inglaterra que também era uma ameaça militar, dado que pouco antes Copenhague foi bombardeada por canhões britânicos e depois pilhada em represaria a sua adesão ao bloqueio continental.  Paralelamente os portugueses negociavam uma alternativa garantindo que os ingleses não invadiriam suas colônias ultramarinas, não atacariam seus navios e tampouco bombardeariam e pilhariam Lisboa.  Analisando friamente a situação de Portugal, Napoleão prometera invadir e destronar os Bragança, mas perder suas preciosas colônias que sustentavam o país também era terrível e ainda pior, por isso entendemos que a opção de Dom João pela Inglaterra não foi tão impensada assim.  Interessante é que até hoje laços entre estes dois países se perpetuam, sendo que os ingleses são o maior grupo de turistas que visitam Portugal anualmente. Ao me deparar com a variedade de chás servidos nas cafeterias, pensei que a interatividade entre estas nações havia influenciado os portugueses a apreciarem uma boa xicara de chá, ou mesmo, que a bebida era oferecida pensando nos visitantes ingleses, entretanto, descobri que o hábito foi levado das terras lusitanas pela rainha Catarina de Bragança e introduzido na corte do rei Charles II.

          A ideia de vir para o Brasil não era algo novo, aliás, bem antigo. Segundo registros, nos sessenta anos da União Ibérica, período em que a Espanha governou Portugal após o desaparecimento do rei Dom Sebastião já se pensava nesta mudança. E por falar no assunto, este foi um tempo tão sombrio para os portugueses que os tornou um povo com temperamento melancólico. Também não é para menos, de acordo com o guia Jorge, tal dominação seria o equivalente de o Brasil ser governado pela Argentina durante sessenta anos. Já pensou? Ao longo dos anos o plano de transferir a corte para sua principal e maior colônia foi recorrente, de modo que tudo indica que a saída foi uma fuga, mas planejada mesmo que tosca e atropeladamente. Quase a véspera da partida Dom João decidia se apenas enviava seu herdeiro, Dom Pedro, ou se partia com toda a família e a corte. Curiosamente Portugal com o apoio da Inglaterra poderia resistir à invasão francesa, uma vez que as tropas francesas estavam maltrapilhas, famintas e compostas por novatos; mas indeciso e mesmo covarde que era o regente se esquivou desta opção. Até mesmo porque já sabia do ocorrido com a família real espanhola – seus parentes por meio de Carlota Joaquina – que foram capturados pelos franceses ao tentar embarcar para suas colônias na América e posteriores mantidos em cárcere no palácio. Em troca de auxílio no embarque e escolta da marinha inglesa o Brasil abriria os portos às nações amigas, em resumo: Inglaterra. E declinar nesta altura do jogo significaria o bombardeio de Lisboa pela frota inglesa e a perda de suas preciosas colônias p ara os ingleses.

          Tamanha foi à confusão na partida que ao que tudo indica a rainha, Dona Maria I – a louca – parecia ser a pessoa mais sensata no momento. Relata-se que ao sair atropeladamente de seu palácio em direção ao porto ela teria dito: “Mais devagar, pois vão pensar que estamos fugindo” e ainda, que ela não queria deixar o país, sendo retirada a força da carruagem por seu cocheiro. Os ingleses observaram toda a loucura da partida e estas observações produziram um livro com relatos do evento. A narrativa é feita por um tenente da marinha inglesa que descreve a situação precária e superlotação das embarcações portuguesas, falta de alimentos para a viagem, o desespero daqueles que não conseguiram embarcar e outros detalhes que corroboram a ideia de que a família real fugiu de Portugal.

          O povo português foi abandonado a sua própria sorte justamente no momento em que mais precisava de um líder. A invasão francesa não foi pacifica, pois os soldados famintos e esfarrapados pilharam o país. Ainda hoje existem marcas desta invasão nos túmulos que foram violados, mosteiros, castelos e igrejas que foram invadidos na busca por objetos valiosos. E para piorar a cena pensem nas mulheres e crianças molestadas e violadas, homens assassinados, campos incendiados, uma pesada multa de guerra foi imposta por Napoleão. Muitos portugueses sequer sabiam da fuga de seu regente quando se deparam com soldados franceses a sua frente. Tudo o que receberam pelo pagamento de seus impostos e lealdade à coroa foram boatos de uma partida na calada da noite e uma suposta carta colocada nas ruas de Lisboa instando o povo a aceitar do modo mais pacifico possível à invasão para evitar derramamento desnecessário de sangue – fala típica do bonachão que era Dom João.

          Toda esta situação gerou um trauma no povo, sendo compreensível o porquê de este período quase não ser mencionado na história de Portugal. Sob a liderança de estudantes, a população se armou com foices, paus e pedras e organizou uma resistência que por fim, aliada aos ingleses expulsaram os franceses. Neste ponto é que conseguimos entender que para o povo português o sentimento é de exílio e não fuga, pois aceitar que seus governantes fugiram é tanto vergonhoso como doloroso. No entanto historiadores e pesquisadores brasileiros e ingleses apontam que mesmo sendo um plano antigo, Dom João VI, sua família e a corte fugiram para o Brasil. Porém a história não é feita de certezas, podemos chegar próximos da realidade, mas nunca da verdade absoluta.

          E no final ou moral da história quem estava certo: o Jorge ou a turista brasileira? O justo é chegamos a um empate, por assim dizer. Para os portugueses a família real foi exilada. Para nós brasileiros ela fugiu. Independente de como tenha ocorrido, esta vinda foi em grande beneficio para o nosso país e talvez até para Portugal, pois uma vez que o povo abandonado por seu governante teve que lutar contra os franceses, criou resiliência e certamente esta qualidade os ajudou na vitória e mais tarde na reorganização do país que por fim exigiu a volta de seu soberano, porém impondo suas novas condições de regência e legislação.

E, não deixe de visitar Portugal, garanto que será uma viajem inesquecível!


Referências Bibliográficas

Balça, Ângela e Magalhães, Olga. Das estórias e da História – Foi quando a família real chegou ... e 1808. Disponível em http://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/9535/1/das%20hist%C3%B3ria%20e%20da%20hist%C3%B3ria.pdf. Acesso em 23/03/19.

Gomes, Laurentino. 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: 3ª Edição. São Paulo: Globo, 2014.

O’/Neil, Thomas. A viagem da família real portuguesa para o Brasil: tradução de Ruth Sylvia de /Miranda Salles. 2ª Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. Direção de Carla Camurati. Brasil: Warner Bros Pictures, 1995. 1 DVD (100 min.), colorido.

A fuga da família real para o Brasil. Disponível em http://ensina.rtp.pt/artigo/a-fuga-para-o-brasil-da-familia-real/. Acesso em 23/03/19.

Reconstituição da partida da família real para o Brasil. Disponível em http://ensina.rtp.pt/artigo/familia-real-parte-para-o-brasil/. Acesso em 23/03/19.

1808, A corte no Brasil. Globo News, 12 episódios. Disponível em https://www.youtube.com/playlist?list=PLyP1ks9vaqhiO1lMqCt89xkLgF-x1BDil. Acesso em 23/03/19.


A corte desembarca na colônia. TV Escola, Parte 1 e 2. Disponível em https://api.tvescola.org.br/tve/embed-video?idItem=4581&autostart=false. Acesso em 23/03/19.


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